Ele corria, corria, parava, respirava e corria mais um pouco até alcançar as escadas. O ar parecia ficar rarefeito enquanto ele subia os degraus. "Esse prédio é estranhamente comprido. Ou seria eu que estou vendo tudo errado?", pensava ele. Nos outros extremos da construção outro garoto e outra garota corriam em direções opostas, ele correndo mais do que ela, apesar dela estar mais preocupada que ele. Na rua lá fora, o último garoto sondava as portas do prédio e ficava andando em círculos, como se não soubesse exatamente para onde ir, ou realmente não tivesse para onde ir. Eles haviam abandonado o filme e tinham seguido em busca da amiga fugitiva.
"O que é isso?", perguntava-se o rapaz enquanto alcançava o próximo andar pelas escadas. "Estão todos desesperados ou o quê? Ela... Ela só precisa ficar sozinha, é disso que ela precisa. Mas eles sabem tanto quanto eu que atualmente não podemos simplesmente sair vagando por aí como quem não quer nada. Para a sociedade submissa ao governo, somos inimigos de morte", divagava ele, encostado contra a parede do sétimo andar. Não pegara o elevador por ter pressa, e subia as escadas com um desespero incandescente subindo por sua garganta. Ele não se desesperava, mas estava desesperado. Os outros três estavam mais calmos, ou queriam transparecer que estavam. A situação não era crítica, mas era o bastante para deixar Marc Daniel Andreatte II desesperado. Talvez fosse por se tratar dela, mas ele não percebia que poderia estar se importando com ela de verdade. Mal sabia ele que ela estava beirando o limite de seu desespero, e voltou a subir.
Fábia Cedreiro era uma garota complicada. Era assim que ela se descrevia, era assim que ela se aceitava. Mas ouvir outros falando que ela era obcecada fora demais para ela. Não havia cogitado ouvir isso de alguém até aquele dia, e o choque fora grande demais para seu ego aguentar. Ela estava questionando si mesma mais do que normalmente fazia, e todas as outras coisas acontecendo em sua vida ao mesmo tempo fizeram ela se sentir vazia e não conseguir encontrar sentido em nada. Não via sentido em seus sentimentos, não via sentido nas palavras de seus amigos, não via sentido em suas reações, não via sentido no movimento da nuvens que ela observava tentando achar as respostas que nunca teve. O barulho da porta de metal no telhado escancarando-se e os passos cansados do rapaz alto de cabelos negros vindo até ela não chamaram sua atenção. Ele andou até a pequena construção que abrigava a caixa d'água do prédio e agachou-se ao lado dela, sentada com as pernas cruzadas no chão de concreto. Ela virou-se e fitou os olhos dele, profundamente azuis como o céu. Ele não estava ofegante, mesmo depois de subir cinco andares de escada.
- V... - começou ele.
- Por que o céu é azul? - perguntou ela, ainda olhando fundo nos olhos dele, sem piscar uma vez sequer.
- P...
- Não responda - interviu ela, repentinamente olhando para frente. Ele respirou fundo e brevemente, e encostou na parede ao lado dela. Ele não tinha o que dizer a ela. Ele só tinha que deixar ela repensar as coisas e organizar tudo, não importa o quanto ela demorasse.
- Estão correndo atrás de você feito baratas tontas - ele não pôde deixar de dizer.
- Você veio até aqui por que é uma barata tonta que não sabia para onde ir sem a barata-tonta-chefe-de-todos?
- Você não é uma barata-tonta-chefe-de-todos.
- Claro que sou.
- É, você é sim.
- Sou?
Ele abriu um vago sorriso por ouvir uma pergunta dela questionando si mesma.
- É, é a chefe e cobra-se por isso a cada segundo que passa. Mas não é uma barata tonta.
- Bem que poderia né, baratas sobrevivem à ataques nucleares, é o que dizem.
Ele surpreendeu-se por ouvir uma piada infame vindo dela tão cedo. Talvez ele tivesse calculado errado o tempo que ela levaria para curar-se e entender-se.
- Marc? - perguntou ela, sem emoção na voz.
- Diga.
- Pelo menos até o sol se pôr... Promete que vai ficar aqui? - perguntou ela, deixando sua cabeça cair sobre o ombro dele e agarrando seu pulso com a mão esquerda. Ele virou-se para ela, mas ela não estava olhando para ele. Ele nunca fora bom em consolar as pessoas, mas ela não queria ser consolada. Ele também não gostava de fazer promessas, mas não podia deixar de dar à ela a garantia que não a abandonaria. Ele sabia, em algum lugar de seu subconsciente, que devia levá-la de volta e avisar os outros, mas o restante de sua mente não o deixava acessar essa vontade de seu subconsciente. Não podia ficar em silêncio, queria dar uma resposta afirmativa, sem muita excitação, sem clichês. Uma resposta que afagaria o ego da garota que não sabia mais se deveria importar-se com seu ego.
- Prometo - disse ele, sentindo como se tirasse o peso de seu desespero de cima de seus ombros. - Até o sol se pôr... E nascer de novo.
"O que é isso?", perguntava-se o rapaz enquanto alcançava o próximo andar pelas escadas. "Estão todos desesperados ou o quê? Ela... Ela só precisa ficar sozinha, é disso que ela precisa. Mas eles sabem tanto quanto eu que atualmente não podemos simplesmente sair vagando por aí como quem não quer nada. Para a sociedade submissa ao governo, somos inimigos de morte", divagava ele, encostado contra a parede do sétimo andar. Não pegara o elevador por ter pressa, e subia as escadas com um desespero incandescente subindo por sua garganta. Ele não se desesperava, mas estava desesperado. Os outros três estavam mais calmos, ou queriam transparecer que estavam. A situação não era crítica, mas era o bastante para deixar Marc Daniel Andreatte II desesperado. Talvez fosse por se tratar dela, mas ele não percebia que poderia estar se importando com ela de verdade. Mal sabia ele que ela estava beirando o limite de seu desespero, e voltou a subir.
Fábia Cedreiro era uma garota complicada. Era assim que ela se descrevia, era assim que ela se aceitava. Mas ouvir outros falando que ela era obcecada fora demais para ela. Não havia cogitado ouvir isso de alguém até aquele dia, e o choque fora grande demais para seu ego aguentar. Ela estava questionando si mesma mais do que normalmente fazia, e todas as outras coisas acontecendo em sua vida ao mesmo tempo fizeram ela se sentir vazia e não conseguir encontrar sentido em nada. Não via sentido em seus sentimentos, não via sentido nas palavras de seus amigos, não via sentido em suas reações, não via sentido no movimento da nuvens que ela observava tentando achar as respostas que nunca teve. O barulho da porta de metal no telhado escancarando-se e os passos cansados do rapaz alto de cabelos negros vindo até ela não chamaram sua atenção. Ele andou até a pequena construção que abrigava a caixa d'água do prédio e agachou-se ao lado dela, sentada com as pernas cruzadas no chão de concreto. Ela virou-se e fitou os olhos dele, profundamente azuis como o céu. Ele não estava ofegante, mesmo depois de subir cinco andares de escada.
- V... - começou ele.
- Por que o céu é azul? - perguntou ela, ainda olhando fundo nos olhos dele, sem piscar uma vez sequer.
- P...
- Não responda - interviu ela, repentinamente olhando para frente. Ele respirou fundo e brevemente, e encostou na parede ao lado dela. Ele não tinha o que dizer a ela. Ele só tinha que deixar ela repensar as coisas e organizar tudo, não importa o quanto ela demorasse.
- Estão correndo atrás de você feito baratas tontas - ele não pôde deixar de dizer.
- Você veio até aqui por que é uma barata tonta que não sabia para onde ir sem a barata-tonta-chefe-de-todos?
- Você não é uma barata-tonta-chefe-de-todos.
- Claro que sou.
- É, você é sim.
- Sou?
Ele abriu um vago sorriso por ouvir uma pergunta dela questionando si mesma.
- É, é a chefe e cobra-se por isso a cada segundo que passa. Mas não é uma barata tonta.
- Bem que poderia né, baratas sobrevivem à ataques nucleares, é o que dizem.
Ele surpreendeu-se por ouvir uma piada infame vindo dela tão cedo. Talvez ele tivesse calculado errado o tempo que ela levaria para curar-se e entender-se.
- Marc? - perguntou ela, sem emoção na voz.
- Diga.
- Pelo menos até o sol se pôr... Promete que vai ficar aqui? - perguntou ela, deixando sua cabeça cair sobre o ombro dele e agarrando seu pulso com a mão esquerda. Ele virou-se para ela, mas ela não estava olhando para ele. Ele nunca fora bom em consolar as pessoas, mas ela não queria ser consolada. Ele também não gostava de fazer promessas, mas não podia deixar de dar à ela a garantia que não a abandonaria. Ele sabia, em algum lugar de seu subconsciente, que devia levá-la de volta e avisar os outros, mas o restante de sua mente não o deixava acessar essa vontade de seu subconsciente. Não podia ficar em silêncio, queria dar uma resposta afirmativa, sem muita excitação, sem clichês. Uma resposta que afagaria o ego da garota que não sabia mais se deveria importar-se com seu ego.
- Prometo - disse ele, sentindo como se tirasse o peso de seu desespero de cima de seus ombros. - Até o sol se pôr... E nascer de novo.






2 comentários:
Vou esperar a continuação para fazer um comentário coeso ao post.
Mas já de antemão esta muito bom.=]
Hoje é o BlogDay, e eu te indiquei!
Beijos
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