- Eu não conheço você - eu disse, sentindo a face esquentar. Foi como se meu subsconsciente falasse por mim. Ele riu.
- Acabo de chegar a prédio - respondeu ele, estendendo a mão. - Meu nome é Ícaro.
- Lisa - eu levantei a mão e acenei. Afinal, eu estava encharcada, e ele, impecavelmente seco. - Acho melhor não...
Ele sorriu, e eu também, ao ver uma pessoa reagir de uma forma tão gentil à minha afirmação, que poderia ser entendida como grosseria. Talvez fosse essa certa indiferença que eu sentia para com o mundo, ou então a sensação que me fazia ver o mundo tão cinza, mas algo me fez perceber algo a mais no simples sorriso dele. - Mudou-se para o quinto andar também, então?
- É... 507 - disse ele. O elevador havia acabado de passar pelo terceiro andar. - Você não está com frio?
- Não, não tomei tanta chuva assim - por mais que eu dissesse isso, minhas roupas e meu cabelo não me deixavam mentir. Algo dentro de mim queria manter a conversa, mas as palavras faltavam - Mas você é novo na cidade também?
- Não, não. É que eu precisava me mudar para algum lugar mais perto da faculdade, então vim para cá.
- Você mora sozinho? - de novo, meu subsconsciente falou por mim. Logo após a interrogação, eu quis apagar a pergunta. Que petulância a minha, sair questionando o coitado.
- Agora sim - ele respondia ainda sorrindo. Agora eu tinha me convencido de que já tinha feito perguntas demais, mas ele parecia não se importar. - E você, faz faculdade?
Eu sorri um sorriso torto, colocando uma mecha de cabelo por trás da orelha. Já perdi a conta de quantas pessoas me perguntaram isso. Todos me julgavam pelo menos quatro anos mais velha do que sou, e isso, por mais que pareça interessante, está longe de ser um ponto positivo para mim.
- Não... Estou no segundo ano...
- Mesmo? - ele soou tão surpreso quanto metade das pessoas que haviam duvidado da minha idade antes dele. - Não parece...
- Ah, se eu ganhasse uma moeda por cada um que me diz isso... - eu suspirei, ele riu, o elevador chegou ao quinto andar, as portas se abriram, ele saiu dando um passo à direita. Tudo isso pareceu ter acontecido numa fração de segundo, e só então minha mente computou uma informação que havia sido ignorada. O som da voz dele dizendo "507" ecoou no fundo de minha consciência.
- Hei, em que apartamento você mora? - perguntou ele, virando-se e seguindo à direita, enquanto eu saía do elevador e dobrava também à direita.
- 505... - respondi com a voz fraca. Ele continuava sorrindo, e disse algo como "ah, que bom", mas foi num tom baixo demais para que eu ouvisse, e eu simplesmente fingi não ter ouvido nada. Eu parei no meio do corredor, em frente à porta de casa, enquanto ele continuou até uma porta mais além, próxima ao final do corredor, acenando e se despedindo antes de colocar a chave na fechadura. Eu coloquei a mão na maçaneta da porta, mas não entrei em casa. Fiquei observando ele sumir pela porta, esperando o som da chave girando, olhando fixa para a parede. A chave que eu segurava na mão caiu no chão, o celular pareceu ter vibrado dentro do bolso da calça, e o mundo recuperou sua cor. Os apartamentos ímpares ficavam de um lado, e os pares do outro, e um andar possuía exatamente oito apartamentos. Resumo da ópera: aquele rapaz, com seu sorriso tão gentil, sua camiseta verde, voz aveludade e olhos castanhos profundos acabara de se tornar... O garoto da porta ao lado.

ouvindo ♪ "I am not kissing you goodbye, on my own" - The Used





3 comentários:
A-D-O-R-E-I esse texto!!! continue com ele! íncrivel, você mudou os personagens e a narrativa acabou mudando junto. Normalmente os mesmos autores tendem a escrever contos diferentes, mas parecendo a mesma história.
beijos!!!
oi! gostei muito da sua história, vou voltar mais vezes.
pq não tinha um ícaro qdo fazia facul fora? hahahhaha adorava meus vizinhos... mas nenhum ícaro.. ai ai (suspiro) hahaha
bjos
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