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quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Contar um conto.


Um conto, a grosso modo, é uma história que ocorre em poucos cenários. É a forma narrativa, em prosa, de menor extensão (no sentido estrito de tamanho). Entre suas principais características, estão a concisão, a precisão, a densidade, a unidade de efeito ou impressão total – da qual falava Poe (1809-1849) e Tchekhov (1860-1904): o conto precisa causar um efeito singular no leitor; muita excitação e emotividade. Ao escritor de contos dá-se o nome de contista. O enredo de um conto é mais estreito que de um romance. Afinal, um romance envolve vários cenários, várias condições para desenvolver a trama. Um conto é mais curto, mais direto. É apresentada uma situação, o problema da situação, a solução e uma moral, tudo isso numa narrativa não muito extensa. Por esse mesmo motivo, um conto precisa prender o leitor e causar um impacto diferente do impacto apresentado por um romance.

Origem dos Contos
De o livro do mágico (cerca de 4000 a.C.), escrito pelos egípcios, até a Bíblia encontram-se textos com estrutura de conto. No entanto, a autoria deles foi perdida. O primeiro grande contista da História é tido como Luciano de Samosata (125-192). São da mesma época Lucius Apuleius (125-180) e Caio Petrônio. Do século XIV ao XIX Giovanni Boccaccio (1313-1375), em sua obra Decameron, estabeleceu as bases do que se entende por conto. A época é marcada por contistas célebres, como Geoffrey Chaucer (que publica os Os Contos de Canterbury), Jean de La Fontaine (autor de vários contos infantis, como A cigarra e a formiga) e Charles Perrault, de O Soldadinho de Chumbo. No século XIX, destacam-se Honoré de Balzac, Leo Tolstoy, Guy de Maupassant e Mary Shelley. Na Alemanha, os irmãos Grimm publicam dezenas de contos infantis (muitos recontados dos originais de Perrault), incluindo Branca de Neve e Capuchinho Vermelho (português europeu) ou Chapeuzinho Vermelho (português brasileiro), enquanto Washington Irving estabelece-se como o primeiro contista estadunidense relevante.

Conteúdo e forma
Forma: expressão ou linguagem mais os elementos concretos e estruturados, como as palavras e as frases. Conteúdo: é imaterial (fixado e carregado pela forma); são as personagens, suas ações, a história. Há contos de Machado de Assis, de Katherine Mansfield, de José J. Veiga, de Tchecov, de Clarice Lispector, por exemplo, que não são "contáveis", não há "nada" acontecendo. O essencial está no "ar", na atmosfera, na forma de narrar, no "estilo". No livro "Que é a literatura?" de Jean-Paul Sartre diz que “ninguém é escritor por haver decidido dizer certas coisas, mas por haver decidido dizê-las de determinado modo. E o 'estilo', decerto, é o que determina o valor da prosa”.

Necessidades básicas
O conto necessita de tensão, ritmo, o imprevisto dentro dos parâmetros previstos, unidade, compactação, concisão, conflito, início, meio e fim; o passado e o futuro têm significado menor. O "flashback" pode acontecer, mas só se absolutamente necessário, mesmo assim da forma mais curta possível.

Final enigmático
O final enigmático prevaleceu até Maupassant (fim do século XIX) e era muito importante, pois trazia o desenlace surpreendente (o fechamento com “chave de ouro”, como se dizia). Hoje em dia tem pouca importância; alguns críticos e escritores acham-no perfeitamente dispensável, sinônimo de anacronismo. Mesmo assim não há como negar que o final no conto é sempre mais carregado de tensão do que no romance ou na novela e que um bom final é fundamental no gênero. “Eu diria que o que opera no conto desde o começo é a noção de fim. Tudo chama, tudo convoca a um final” (Antonio Skármeta, Assim se escreve um conto). Neste gênero, como afirmou Tchecov, é melhor não dizer o suficiente do que dizer demais. Para não dizer demais é melhor, então, "sugerir" como se tivesse de haver um certo "silêncio" entremeando o texto, sustentando a intriga, mantendo a tensão. Ricardo Piglia, comentando alguns contos de Hemingway (1898-1961), diz que o mais importante nunca se conta: “O conto se constrói para fazer aparecer artificialmente algo que estava oculto. Reproduz a busca sempre renovada de uma experiência única que nos permite ver, sob a superfície opaca da vida, uma verdade secreta” (O laboratório do escritor). Piglia diz que conta uma história como se tivesse contando outra. Como se o escritor estivesse narrando uma história "visível", disfarçando, escondendo uma história secreta. “Narrar é como jogar pôquer: todo segredo consiste em fingir que se mente quando se está dizendo a verdade.”

Diálogos
Os diálogos são de suma importância; sem eles não há discórdia, conflito, fundamentais ao gênero. A melhor forma de se informar é através dos diálogos; mesmo no conto em que o ingrediente narrativo seja importante. “A função do diálogo é expor.”, disse Henry James. Em alguns escritores o diálogo é uma ferramenta absolutamente indispensável. Caio Porfírio Carneiro, por exemplo, chega ao ponto de escrever contos compostos apenas por diálogos, sem que, em nenhum instante, apareça um narrador. Em 172 páginas de Trapiá, um clássico da década de 60, há apenas seis páginas sem diálogos. Vejamos os tipos de diálogos:
1.Direto: (discurso direto) as personagens conversam entre si; usam-se os travessões. Além de ser o mais conhecido é, também, predominante no conto.
2.Indireto: (discurso indireto) quando o escritor resume a fala da personagem em forma narrativa, sem destacá-la. Vamos dizer que a personagem conta como aconteceu o diálogo, quase que reproduzindo-o. Essas duas primeiras formas podem ser observadas no conto "A Missa do Galo", Machado de Assis.
3.Indireto livre (discurso indireto livre) é a fusão entre autor e personagem (primeira e terceira pessoa da narrativa); o narrador narra, mas no meio da narrativa surgem diálogos indiretos da personagem como que complementando o que disse o narrador.
4.Monólogo interior (ou fluxo de consciência) é o que se passa “dentro” do mundo psíquico da personagem; “falando” consigo mesma; veja algumas passagens de Perto do coração selvagem, de Clarice Lispector. O livro A canção dos loureiros (1887), de Édouard Dujardin é o precursor moderno deste tipo de discurso da personagem. O Lazarillo de Tormes, de autor desconhecido, é considerado o verdadeiro precursor deste tipo de discurso.

Focos narrativos
1.Primeira pessoa: Personagem principal conta sua história; este narrador limita-se ao saber de si próprio, fala de sua própria vivência. Esta é uma narrativa típica do romance epistolar (século XVIII).
2.Terceira pessoa: O texto é narrado em 3ª pessoa e neste caso podemos ter:
A) Narrador observador: o narrador limita-se a descrever o que está acontecendo, “falando” do exterior, não nos colocando dentro da cabeça da personagem; assim não sabemos suas emoções, idéias, pensamentos. O narrador apenas descreve o que vê, no mais, especula.
B) Narrador onisciente: conta a história; o narrador tudo sabe sobre a vida das personagens, sobre seus destinos, idéias, pensamentos. Como se narrasse de dentro da cabeça delas.

Minhas histórias são essencialmente romances, por mais que talvez pareçam ser contos - ou não - quando postadas aos trechos aqui no blog. Não consigo escrever contos, tampouco crônicas. Se tenho uma moral para atingir, começo a descrever as situações, e cenários, e personagens, e diálogos... E a história não cabe em meras linhas. Logo temos uma nova página, e depois desta outras novas páginas. Bom para vocês, leitores meus, que podem vir aqui e prestigiar novas histórias. E não vou parar tão cedo, como eu já disse antes: por mim, eu escrevo até morrer.

Frase famosa!
"Literatura, a mais sedutora, mais enganosa, mais perigosa das profissões." - John Morley.

Acabaram-se as postagens alternativas, espero que gostem :)

2 comentários:

Smiklt disse...

ficou dahora o novo layout Juu, naum tava botando fé, mais ficou mara...

Anônimo disse...

Caríssima...Muito legal seu blog...
Eu escrevo , desde menina, mas por vezes, saio de cena e depois volto a escrever...Nestas idas e vindas, minha gaveta do tempo, está cheia de escritos; anotações, rabiscos, etc. Já na prateleira (estante), 3 , 4 coletâneas, 1 cd e a vontade de aprimorar-me mais e mais, nessa aventura que é sonhar e colocar os sonhos em palavras...Foi assim, buscando aprender o que desconheço é que pesquisando sobre o tema "contos", é que felizmente, encontrei esse Blog e pude conhecer , mais uma das e dos muitas e muitos escritores, desse nosso Brasil...Parabéns e , como bem escrevestes aqui:----Parar de escrever, JAMAIS!!! Sempre em frente, até o final!
Beijão no coração!

(a)Ivalove