Pensava Fabrício. Cátia e Maria Helena puxaram-no até um dos bancos da catedral, e Daniel sentou ao seu lado, com o olhar frio, fixo em algo além. Ele não conseguia pensar em nada. Tudo que estava acontecendo não parecia abalar seu bom senso, mas o deixava inquieto ao mesmo tempo. Por alguns segundos ele se ocupava em pensar quanto tempo estaria perdendo ali na catedral, e logo sua atenção voltava ao casal e ao padre, que se colocavam logo na frente deles. "O que diabos está acontecendo, afinal?", perguntava-se o rapaz.
- Antes de tudo, uma coisa: vocês quatro estudam naquele colégio católico na outra quadra? - perguntou Atos.
- Eu faço cursinho lá - respondeu Fabrício, surpreendendo-se com a naturalidade de sua própria voz. - E antes da faculdade nós quatro estudávamos lá.
- Certo - disse Than. - Então vocês devem conhecer a Bíblia.
Ninguém se prontificou a reagir.
- E já ouviram falar dos quatro cavaleiros do apocalipse também, presumo eu...
- Você pensa que somos idiotas? - perguntou Maria Helena, encarando Than com os olhos afetados.
- De forma alguma - o padre e Than responderam em uníssono, com as risadas de Atos ao fundo.
- Lee, se acalme - recomendou Cátia, segurando a mão da amiga. Maria Helena respirava rápido, apertando a mão de Cátia. - Vamos ouvir, na pior das situações a gente corre.
- Gostei dessa garota - comentou Atos. - Ela é do meu par dessa vez?
- Não, é do meu, junto com o fortinho da marca no queixo - Daniel bufou, e Fabrício não pôde conter um breve e baixo riso. - Pois bem. Vou contar uma história. Não sei se vocês possuem uma crença em algo, mas alguma base religiosa vocês devem ter, fruto do colégio católico e da cultura religiosa que predomina em quase todos os cantos do planeta. Então. Eu e meu irmão Atos aqui, somos, como a mocinha ali disse, a personificação da Morte. Cuidamos do ir e vir das almas, da vida material para a vida extra-corpórea, para uma nova vida, quem sabe. Para o que vocês tendem a denominar Céu e Inferno. Diferente do que a maioria das pessoas acredita, essa história de juízo final não é algo futuro e distante, quando todas as almas serão julgadas e então adentrarão o Reino dos Céus ou padecerão entre as chamas infernais. Cada pessoa passa por seu próprio julgamento, por assim dizer. Tudo que as pessoas fazem na vida é registrado e guardado numa biblioteca. Quando alguém falece, seus registros são analisados e é determinado o que acontecerá à alma. Esse é o nosso trabalho.
Os olhos de Cátia brilhavam, em contraste à aflição que ela apresentava minutos antes. Maria Helena ainda respirava ofegante, mas parecia estar mais apta a ouvir e não apenas a replicar. Na mente de Fabrício, as informações não soavam tão alarmantes quanto ele pensava que soariam. Talvez fossem todos os problemas que o tivessem atingido naquele dia, talvez fosse essa preocupação que o atormentava, alguma coisa o fazia crer que estar ali ouvindo a estranha mulher falar sobre a morte não era algo detestável.
- Evidentemente, apenas dois indivíduos como nós não podem se encarregar de todo o mundo - prosseguiu Atos. - Afinal, é bastante gente. Por isso, a cada geração, quatro pessoas são escolhidas em cada um dos quatro cantos do mundo, para atuarem como mediadores da Morte, os quatro cães infernais, os quatro cavaleiros do apocalipse. Adivinhem só, estas quatro pessoas são vocês - ele fez uma pausa, olhando temporariamente para cada um dos jovens, e então pousando o olhar sobre Cátia, passando a conversar com um tom de voz mais categórico, como se discursasse. - A primeira a entrar foi você. Curiosa e decidida, tende a ser uma boa líder, egoísta, mas não deixa que as outras pessoas percebam seu egoísmo com facilidade, mascarando-se por caridades e gentilezas. Não é por isso que não merece mérito. Sabe persuadir assim como sabe mentir. É amiga de muitos, e muitos a seguem. Seu cavalo é branco, e foi-lhe dada uma coroa. Simboliza a conquista, o anti-Cristo. Você representa o cavaleiro branco, que vai vencendo.
Cátia sentiu uma estranha pressão no peito, Fabrício e Daniel engoliram em seco. Tudo que Atos dizia era verdade, como se ele conhecesse Cátia a anos. Ele então olhou para Fabrício e prosseguiu.
- Protetor, indeciso, preocupado. Problemático, bagunceiro. Por vezes não demonstra piedade alguma por outras pessoas ou causas. Gosta de montar estratégias, e não evita medidas drásticas, tampouco dramas ou intrigas. Seu cavalo é vermelho como o fogo e o sangue, e você carrega uma espada, destinado a trazer a destruição. Simboliza a guerra, o cavaleiro vermelho. - Atos virou-se para Maria Helena, que até então olhava para baixo. - Ah, a mocinha que sabe tudo sobre todas as coisas. Realmente, sua posição é bem condizente com o seu perfil. Sincera, vaidosa, altruísta e alienada. Informada sobre todas as coisas que lhe parecem interessantes, tem vários amigos e inimigos, gosta de tudo que é do bom e do melhor. Não menospreza as outras coisas ou pessoas, porém. Ao menos não publicamente. Cavalga num cavalo negro, e carrega uma balança. Representa a fome, a desigualdade derivada da guerra.
A moça abriu a boca, mas de nada valeria retrucar palavras que eram sinceras. Fabrício fechou a cara, remoendo a descrição que lhe fora dada. Daniel já levantava os olhos ao homem de cabelos prateados, imaginando o que viria para ele, e já tendo conhecimento de qual era seu cavalo.
- Finalmente, o cara com a marca no queixo. Você, garoto, tem as portas do Inferno abrindo-se às suas costas. Forte, popular, falso e por vezes indiferente. Materialista, pode acabar sendo frio demais, ignorando os sentimentos de outrem, às vezes não dando valor às coisas. Seu cavalo é magro, de uma cor baia, como a cor de corpos em decomposição. Simboliza a Morte como um todo, a praga.
O padre respirou fundo, e a catedral mergulhou no silêncio. Cátia e Maria Helena entreolharam-se quando as palavras começaram a fazer sentido. "Tudo aconteceu tão rápido" pensou Daniel, tirando o celular do bolso para checar as horas, agindo com uma leve indiferença à descrição que ouvira. Than e Atos aguardavam por um comentário dos jovens, e o padre fitava Fabrício com um ar de preocupação, ou talvez fosse apenas curiosidade.
- E não temos escolha a não ser trabalhar como ceifeiros para vocês - afirmou Daniel, guardando o celular e encostando-se no banco da catedral, esticando as pernas.
- Na realidade têm - esclareceu Atos. - No momento que vocês saírem por aquela porta, vocês poderão se esquecer de tudo que ouviram aqui e seguir o caminho que estavam seguindo antes de resolverem entrar na catedral, caso recusarem. E vocês não serão ceifeiros. Não estarão tirando vidas. Estarão, apenas, direcionando as almas para seus devidos destinos. Não serão assassinos. Nós somos a Morte, uma entidade divina. Vocês foram escolhidos a partir da providência divina. No entanto, não os privaremos do direito de escolha, se assim fizéssemos, não seríamos justos como justas divindades que somos. A decisão cabe apenas à vocês.
Cátia olhou para Fabrício com um ar de dúvida. Daniel esticou os braços atrás da cabeça, a olhar para o teto da catedral, enquanto Maria Helena permanecia com a cabeça baixa. "E essa agora?" pensou novamente Fabrício.
Este trecho é uma prévia e está sujeito a mudanças. Desculpem-me pela extensão do texto.
Rá, que tal? :D
O layout ficou bom né, não vão mentir para mim!
Sem frases famosas e sem trilha sonora hoje.
Beijos, se cuidem.





0 comentários:
Postar um comentário