rss
email





twitter
facebook


quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Feito anjo que morreu de raiva.

Créditos do título: Luxúria.
Este trecho é uma continuação deste outro trecho aqui.

- Quem é você? - perguntou Fabrício, pausadamente, num tom de voz que beirava o assombro, abraçando Cátia com um pouco mais de força, enquanto ela esticava os braços à criança sozinha em meio aos corpos ensanguentados. A expressão no rosto da moça era ilegível, em meio a tristeza de seus olhos e o desespero de sua boca meio-aberta, da qual não saíam palavras, uma vez que as palavras soavam efêmeras diante da situação.
- Ora, ora, eles realmente se conheciam - ouviu-se uma voz feminina, e repentinamente uma mulher de cabelos negros surgiu ao lado de Cátia. Fabrício deu um ou dois passos para o lado, surpreso diante da mulher, sem coragem o suficiente para fitar os olhos azuis dela. Maria Helena soltou um leve grito quando um homem de olhos também azuis e cabelos prateados surgiu entre ela e o rapaz ao seu lado, trasnpondo a porta da catedral como e a madeira fosse a mais leve névoa.
- E além disso, parecem ser amigos - riu-se o homem, olhando de Maria Helena para o rapaz e novamente para Maria Helena. - Faz uns dois minutos que nós saímos e esses quatro já chegaram...
- Pai nosso que estás nos céus... - começou o rapaz, levando uma mão ao peito, uma expressão de súplica no rosto.
- Tarde demais para orar, garoto - alertou o homem, segurando o queixo do rapaz com os dedos finos e pálidos, um sorriso estranhamente divertido no rosto. - Aliás, a questão aqui não vai contra nenhuma divindade, então suas orações não farão grande diferença...
O homem calou-se, analisando o rapaz com os olhos azuis. Levantando-lhe brevemente o rosto, encontrou uma fina marca logo abaixo do queixo do rapaz, e então o soltou.
- Seu nome é Daniel, estou correto? - indagou o homem. O rapaz engoliu em seco. - Sim, é você mesmo. O outro cara lá não deve ter uma marca no queixo como a que a profecia descrevia.
O homem deu as costas aos dois e foi em direção à mulher, que já havia deixado Fabrício e Cátia e seguia até o padre, em pé logo após a poça de sangue.
- Que cena mais dramática - comentou a mulher, soando indiferente. - Voltem logo para o inferno e deixem o pequeno anjo em paz.
Cátia apertava as mãos de Fabrício que a seguravam pela cintura, sentindo um tom estranho na voz da mulher. Ela não tratava os corpos ali estirados com desprezo, mas falava-lhes de uma forma que a fazia crer que ela lhes dava certa importância. O homem agachou-se e estendeu a mão para a criança, que ainda não tirara os pequenos olhos de Cátia e Fabrício.
- Por que veio aqui? - a voz do homem, antes entre gargalhadas, agora soava gentil e doce. - Seu lugar não é aqui.
- Aqui - repetiu a criança, virando-se para o homem e estendendo uma das mãos em direção à Cátia. - Cá...Cátia. Fa... Brício.
Cátia cobriu a boca ao ouvir a voz inocente que falava seu nome. Daniel pegara na mão de Maria Helena e a conduzia pelo corredor da catedral, para se encontrar com os outros dois.
- Eu sei - disse o homem, sorrindo bondosamente para a criança. - Nós vamos explicar tudo, você veio avisar, não veio?
A criança segurou a mão do homem, sorrindo e confirmando com a cabeça afirmativamente. Um segundo depois desapareceu num lampejo branco, ao passo que o sangue no chão começava a ser dragado para baixo, como se fosse escoado pelo chão de cimento da catedral. Daniel parou ao lado de Cátia, olhando para Fabrício na tentativa de que o outro lhe dissesse algo sobre o que estava acontecendo. O padre respirou fundo e adiantou-se.
- Não fiquem em silêncio, assim é difícil de saber se estão apreensivos apenas ou realmente aterrorizados - disse ele, gentilmente.
- Aterrorizado é uma boa palavra para descrever - murmurou Daniel. Cátia suspirou e soltou as mãos de Fabrício, dando um passo à frente, fitando o padre com os olhos castanho-esverdeados.
- Quem são eles? - perguntou ela, tentando soar calma, embora sua mão esquerda tremesse.
- Eu sou Than - disse a mulher, olhando para Cátia como se a considerasse igual à ela.
- E eu sou Atos - continuou o homem, sorrindo. Maria Helena levantou as sobrancelhas.
- Hei, seu padre, ainda não chegou o dia das bruxas - disse ela, rindo. O padre olhou para ela indignado, abrindo a boca, mas nada disse. - Isso é uma grande piada de mal gosto.
A moça deu as costas e parecia decidida a ir embora, quando Daniel a segurou pelo braço.
- Do que é que você está falando?
- Não é óbvio? Than e Atos. Junte as palavras e temos "Thanatos" - disse ela, recitando cada palavra como se fosse um discurso ensaiado. - Estão tirando uma da nossa cara.
- Não, não estão - disse Cátia, ainda sem tirar os olhos da mulher. - É verdade.
- Ela acredita em nós! - exclamou Atos, rindo-se. O padre observava os quatro com certa apreensão no olhar. - E agora ela com certeza quer saber o que está acontecendo, não quer?
Cátia não respondeu, e Maria Helena desistiu de ir embora. Tudo estava confuso, incerto, e isso a mantinha curiosa, por mais que uma parte dela quisesse ir embora o mais rápido possível, como se precisasse proteger sua existência. Fabrício, por sua vez, já não sentia mais medo, se é que em algum momento tal sentimento realmente o tivesse acometido.
- Pois bem. Vocês parecem ser crianças espertas, então já entenderam que nossos nomes formam o nome Thanatos... - começou Atos.
- Morte, para os leigos - disse Maria Helena, num tom de desdém, como se nada mais pudesse impressioná-la.
- Correto. Então já que você é tão espertinha, quem somos nós?
- Podem ser personificações da morte, coisa que eu duvido...
- Duvidou errado - interveio Than. Maria Helena calou-se. - Realmente somos "personificações", como você diz. Cuidamos do ir e vir das almas, tanto para o paraíso quanto para o inferno. E isso faz de vocês...
- Nossos quatro cãezinhos infernais escolhidos a dedo - completou Atos. Uma brisa percorreu a catedral, que caiu num perturbador silêncio. O padre ainda olhava para Cátia e Fabrício, e deu alguns passos à frente.
- Então, se vocês forem gentis o bastante para ouvir, temos coisas a explicar.

Metade do trecho escrito no meio da aula de sociologia, metade agora. Todas as questões de posts anteriores foram resolvidas. Eu voltei ao outro lado da piscina, e a virada olímpica foi mais fácil do que eu esperava. Obrigada à todos que me desejaram sorte, eu realmente precisei.

A imagem de hoje é em homenagem à um cachorro - ou seria cadela? - muito simpático - ou talvez simpática - da raça Collie, que eu encontro quase todos os dias quando estou indo para a natação. 

Vamos a um fato interessante.Lembram do Fulano X, aquele cara parecido com o Gregory Smith - ui calorão -, que faz parte de uma das minhas longínquas paixões platônicas? Não?
Pois, este é o post que se refere à ele: Platônico. E hoje eu, sentada na frente do pc, digitando este trecho, escuto o interfone tocar. Vou atender, é uma entrega, minha câmera digital que chegou. Espero o entregador subir até o andar correto, olhando pelo olho mágico. Abro a porta, e quem é? O tal do Fulano. 

Irônico, é o que eu digo.

2 comentários:

Gilberto disse...

Nem precisava de sorte
Só de atitude mesmo. Feito isso o resto era garantido.
.
Ainda implincando com Catia e Fabricio.
Enfim.. acho que isso não vai mudar né? Mas de resto muito bom hein. Umas expressões muito boas.
.
Não conheço muito de Luxuria. Mas sinto que ia me decepcionar tbm hahahahahahahaha
Mas foi um ótimo titúlo.

Mah disse...

irônico?? eu chamaria de DESTINO! pq isso nunca acontece comigo? hahhaha

adorei a história, de verdade!
bjoos