Este trecho é uma continuação deste outro trecho aqui.
- Quem é você? - perguntou Fabrício, pausadamente, num tom de voz que beirava o assombro, abraçando Cátia com um pouco mais de força, enquanto ela esticava os braços à criança sozinha em meio aos corpos ensanguentados. A expressão no rosto da moça era ilegível, em meio a tristeza de seus olhos e o desespero de sua boca meio-aberta, da qual não saíam palavras, uma vez que as palavras soavam efêmeras diante da situação.
- Ora, ora, eles realmente se conheciam - ouviu-se uma voz feminina, e repentinamente uma mulher de cabelos negros surgiu ao lado de Cátia. Fabrício deu um ou dois passos para o lado, surpreso diante da mulher, sem coragem o suficiente para fitar os olhos azuis dela. Maria Helena soltou um leve grito quando um homem de olhos também azuis e cabelos prateados surgiu entre ela e o rapaz ao seu lado, trasnpondo a porta da catedral como e a madeira fosse a mais leve névoa.
- E além disso, parecem ser amigos - riu-se o homem, olhando de Maria Helena para o rapaz e novamente para Maria Helena. - Faz uns dois minutos que nós saímos e esses quatro já chegaram...
- Pai nosso que estás nos céus... - começou o rapaz, levando uma mão ao peito, uma expressão de súplica no rosto.
- Tarde demais para orar, garoto - alertou o homem, segurando o queixo do rapaz com os dedos finos e pálidos, um sorriso estranhamente divertido no rosto. - Aliás, a questão aqui não vai contra nenhuma divindade, então suas orações não farão grande diferença...
O homem calou-se, analisando o rapaz com os olhos azuis. Levantando-lhe brevemente o rosto, encontrou uma fina marca logo abaixo do queixo do rapaz, e então o soltou.
- Seu nome é Daniel, estou correto? - indagou o homem. O rapaz engoliu em seco. - Sim, é você mesmo. O outro cara lá não deve ter uma marca no queixo como a que a profecia descrevia.
O homem deu as costas aos dois e foi em direção à mulher, que já havia deixado Fabrício e Cátia e seguia até o padre, em pé logo após a poça de sangue.
- Que cena mais dramática - comentou a mulher, soando indiferente. - Voltem logo para o inferno e deixem o pequeno anjo em paz.
Cátia apertava as mãos de Fabrício que a seguravam pela cintura, sentindo um tom estranho na voz da mulher. Ela não tratava os corpos ali estirados com desprezo, mas falava-lhes de uma forma que a fazia crer que ela lhes dava certa importância. O homem agachou-se e estendeu a mão para a criança, que ainda não tirara os pequenos olhos de Cátia e Fabrício.
- Por que veio aqui? - a voz do homem, antes entre gargalhadas, agora soava gentil e doce. - Seu lugar não é aqui.
- Aqui - repetiu a criança, virando-se para o homem e estendendo uma das mãos em direção à Cátia. - Cá...Cátia. Fa... Brício.
Cátia cobriu a boca ao ouvir a voz inocente que falava seu nome. Daniel pegara na mão de Maria Helena e a conduzia pelo corredor da catedral, para se encontrar com os outros dois.
- Eu sei - disse o homem, sorrindo bondosamente para a criança. - Nós vamos explicar tudo, você veio avisar, não veio?
A criança segurou a mão do homem, sorrindo e confirmando com a cabeça afirmativamente. Um segundo depois desapareceu num lampejo branco, ao passo que o sangue no chão começava a ser dragado para baixo, como se fosse escoado pelo chão de cimento da catedral. Daniel parou ao lado de Cátia, olhando para Fabrício na tentativa de que o outro lhe dissesse algo sobre o que estava acontecendo. O padre respirou fundo e adiantou-se.
- Não fiquem em silêncio, assim é difícil de saber se estão apreensivos apenas ou realmente aterrorizados - disse ele, gentilmente.
- Aterrorizado é uma boa palavra para descrever - murmurou Daniel. Cátia suspirou e soltou as mãos de Fabrício, dando um passo à frente, fitando o padre com os olhos castanho-esverdeados.
- Quem são eles? - perguntou ela, tentando soar calma, embora sua mão esquerda tremesse.
- Eu sou Than - disse a mulher, olhando para Cátia como se a considerasse igual à ela.
- E eu sou Atos - continuou o homem, sorrindo. Maria Helena levantou as sobrancelhas.
- Hei, seu padre, ainda não chegou o dia das bruxas - disse ela, rindo. O padre olhou para ela indignado, abrindo a boca, mas nada disse. - Isso é uma grande piada de mal gosto.
A moça deu as costas e parecia decidida a ir embora, quando Daniel a segurou pelo braço.
- Do que é que você está falando?
- Não é óbvio? Than e Atos. Junte as palavras e temos "Thanatos" - disse ela, recitando cada palavra como se fosse um discurso ensaiado. - Estão tirando uma da nossa cara.
- Não, não estão - disse Cátia, ainda sem tirar os olhos da mulher. - É verdade.
- Ela acredita em nós! - exclamou Atos, rindo-se. O padre observava os quatro com certa apreensão no olhar. - E agora ela com certeza quer saber o que está acontecendo, não quer?
Cátia não respondeu, e Maria Helena desistiu de ir embora. Tudo estava confuso, incerto, e isso a mantinha curiosa, por mais que uma parte dela quisesse ir embora o mais rápido possível, como se precisasse proteger sua existência. Fabrício, por sua vez, já não sentia mais medo, se é que em algum momento tal sentimento realmente o tivesse acometido.
- Pois bem. Vocês parecem ser crianças espertas, então já entenderam que nossos nomes formam o nome Thanatos... - começou Atos.
- Morte, para os leigos - disse Maria Helena, num tom de desdém, como se nada mais pudesse impressioná-la.
- Correto. Então já que você é tão espertinha, quem somos nós?
- Podem ser personificações da morte, coisa que eu duvido...
- Duvidou errado - interveio Than. Maria Helena calou-se. - Realmente somos "personificações", como você diz. Cuidamos do ir e vir das almas, tanto para o paraíso quanto para o inferno. E isso faz de vocês...
- Nossos quatro cãezinhos infernais escolhidos a dedo - completou Atos. Uma brisa percorreu a catedral, que caiu num perturbador silêncio. O padre ainda olhava para Cátia e Fabrício, e deu alguns passos à frente.
- Então, se vocês forem gentis o bastante para ouvir, temos coisas a explicar.
Metade do trecho escrito no meio da aula de sociologia, metade agora.
Todas as questões de posts anteriores foram resolvidas. Eu voltei ao outro lado da piscina, e a virada olímpica foi mais fácil do que eu esperava. Obrigada à todos que me desejaram sorte, eu realmente precisei.A imagem de hoje é em homenagem à um cachorro - ou seria cadela? - muito simpático - ou talvez simpática - da raça Collie, que eu encontro quase todos os dias quando estou indo para a natação.
Vamos a um fato interessante.Lembram do Fulano X, aquele cara parecido com o Gregory Smith - ui calorão -, que faz parte de uma das minhas longínquas paixões platônicas? Não?
Pois, este é o post que se refere à ele: Platônico. E hoje eu, sentada na frente do pc, digitando este trecho, escuto o interfone tocar. Vou atender, é uma entrega, minha câmera digital que chegou. Espero o entregador subir até o andar correto, olhando pelo olho mágico. Abro a porta, e quem é? O tal do Fulano.
Irônico, é o que eu digo.





2 comentários:
Nem precisava de sorte
Só de atitude mesmo. Feito isso o resto era garantido.
.
Ainda implincando com Catia e Fabricio.
Enfim.. acho que isso não vai mudar né? Mas de resto muito bom hein. Umas expressões muito boas.
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Não conheço muito de Luxuria. Mas sinto que ia me decepcionar tbm hahahahahahahaha
Mas foi um ótimo titúlo.
irônico?? eu chamaria de DESTINO! pq isso nunca acontece comigo? hahhaha
adorei a história, de verdade!
bjoos
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