Marina e seu guarda-chuva prateado me abandonaram a uma esquina de casa. Todos os dias era assim, mas quando há uma variável chamada "chuva" dentro da equação, as coisas mudam. Eu não seria o tipo de amiga que pediria para a outra me acompanhar até em casa por causa de uma chuvinha, e naquele final de tarde não seria tão mal, já que eu mal sentia a chuva tocar meu corpo. Cheguei, tirei a chave do bolso e a enfiei na fechadura da porta de vidro. O prédio era tão frio em seu interior, que talvez fosse mais agradável ficar na chuva. Andei devagar até o elevador, parando para avaliar a situação de meu cabelo, e enquanto esperava, ouvi o som típico da porta de vidro se fechando. Não me virei para ver quem era. Até hoje eu acho que a melhor coisa que eu fiz foi não olhar, mas só Deus sabe o que teria acontecido se eu tivesse me virado e olhado para trás alguns segundos antes de um rapaz de camiseta verde e jaqueta preta surgir ao meu lado, ao mesmo tempo que o elevador chegou e as portas se abriram. Eu entrei, indiferente à tudo, e principalmente à ele, apertei o botão do quinto andar e encostei-me no fundo do elevador. Ele adiantou-se para apertar um botão também, mas nada fez, e só então eu olhei para ele. E ele olhou para mim, os olhos castanhos fitando os meus verde-acastanhados.
- Eu não conheço você - eu disse, sentindo a face esquentar. Foi como se meu subsconsciente falasse por mim. Ele riu.
- Acabo de chegar a prédio - respondeu ele, estendendo a mão. - Meu nome é Ícaro.
- Lisa - eu levantei a mão e acenei. Afinal, eu estava encharcada, e ele, impecavelmente seco. - Acho melhor não...
Ele sorriu, e eu também, ao ver uma pessoa reagir de uma forma tão gentil à minha afirmação, que poderia ser entendida como grosseria. Talvez fosse essa certa indiferença que eu sentia para com o mundo, ou então a sensação que me fazia ver o mundo tão cinza, mas algo me fez perceber algo a mais no simples sorriso dele. - Mudou-se para o quinto andar também, então?
- É... 507 - disse ele. O elevador havia acabado de passar pelo terceiro andar. - Você não está com frio?
- Não, não tomei tanta chuva assim - por mais que eu dissesse isso, minhas roupas e meu cabelo não me deixavam mentir. Algo dentro de mim queria manter a conversa, mas as palavras faltavam - Mas você é novo na cidade também?
- Não, não. É que eu precisava me mudar para algum lugar mais perto da faculdade, então vim para cá.
- Você mora sozinho? - de novo, meu subsconsciente falou por mim. Logo após a interrogação, eu quis apagar a pergunta. Que petulância a minha, sair questionando o coitado.
- Agora sim - ele respondia ainda sorrindo. Agora eu tinha me convencido de que já tinha feito perguntas demais, mas ele parecia não se importar. - E você, faz faculdade?
Eu sorri um sorriso torto, colocando uma mecha de cabelo por trás da orelha. Já perdi a conta de quantas pessoas me perguntaram isso. Todos me julgavam pelo menos quatro anos mais velha do que sou, e isso, por mais que pareça interessante, está longe de ser um ponto positivo para mim.
- Não... Estou no segundo ano...
- Mesmo? - ele soou tão surpreso quanto metade das pessoas que haviam duvidado da minha idade antes dele. - Não parece...
- Ah, se eu ganhasse uma moeda por cada um que me diz isso... - eu suspirei, ele riu, o elevador chegou ao quinto andar, as portas se abriram, ele saiu dando um passo à direita. Tudo isso pareceu ter acontecido numa fração de segundo, e só então minha mente computou uma informação que havia sido ignorada. O som da voz dele dizendo "507" ecoou no fundo de minha consciência.
- Hei, em que apartamento você mora? - perguntou ele, virando-se e seguindo à direita, enquanto eu saía do elevador e dobrava também à direita.
- 505... - respondi com a voz fraca. Ele continuava sorrindo, e disse algo como "ah, que bom", mas foi num tom baixo demais para que eu ouvisse, e eu simplesmente fingi não ter ouvido nada. Eu parei no meio do corredor, em frente à porta de casa, enquanto ele continuou até uma porta mais além, próxima ao final do corredor, acenando e se despedindo antes de colocar a chave na fechadura. Eu coloquei a mão na maçaneta da porta, mas não entrei em casa. Fiquei observando ele sumir pela porta, esperando o som da chave girando, olhando fixa para a parede. A chave que eu segurava na mão caiu no chão, o celular pareceu ter vibrado dentro do bolso da calça, e o mundo recuperou sua cor. Os apartamentos ímpares ficavam de um lado, e os pares do outro, e um andar possuía exatamente oito apartamentos. Resumo da ópera: aquele rapaz, com seu sorriso tão gentil, sua camiseta verde, voz aveludade e olhos castanhos profundos acabara de se tornar... O garoto da porta ao lado.

ouvindo ♪ "I am not kissing you goodbye, on my own" -
The Used