O silêncio completo, pode ouvir minha voz?
Varra-o, e jogue fora, e aí você terá um motivo para se orgulhar.
A tristeza, o eco do vento. Você é livre para brilhar
Vá pelo meu caminho, vamos lá.
Vá pelo meu caminho, vamos lá.
- Eu perguntei onde está o Bell! - repetiu Lena, empurrando a ponta da lança um milímetro ou dois mais perto do rosto do homem.
- Não faço ideia! Não conheço nenhum Bell! - a voz do homem soava estranha, e ele tinha uma cicatriz horrorosa que parecia dar uma volta completa por seu pescoço.
- Pense comigo, cidadão - ameaçou Lena. - O nome do lugar é Jack Bell's. Então é mais do que compreensível que exista um Jack e um Bell, e olha só, você não é nenhum dos dois!
Lena afastou a lança do homem, ergueu-a na altura da orelha do cidadão e num golpe rápido golpeou-o fazendo-o cair no chão, gemendo, a orelha cortada pela metade. A moça levantou a lança na altura dos olhos e lambeu a ponta ensanguentada.
- O sangue dele não é ruim.
- Ele já foi mordido, certeza - observou Maxwell, sentado numa banqueta, segurando o bastão que carregava consigo entre as cabeças de dois caçadores que haviam caído no chão ao tentar fugir, e agora permaneciam sentados aos pés de Maxwell. - Mas eu pensei que Jack e Bell eram a mesma pessoa.
- Não, são dois irmãos... - chutou Ella, sentada sobre uma mesa perto das janelas, balançando as pernas distraidamente, com três outros caçadores tremendo de medo embaixo da mesa.
- Não eram só amigos? - indagou Code, encostado de braços cruzados na parede oposta à mesa onde Ella sentara. Os pés dos dois homens que o ladeavam pareciam presos no chão por alguma força desconhecida.
- Pouco me importa! - exclamou Lena, balançando a lança de um lado para o outro. - Tudo que eu preciso saber é o que aqueles capangas do Concílio fizeram com o Bell!
- Eles estão com o Concílio?
- Não, mas o Concílio aprova - observou Alice, bufando.
- Você não deveria cuidar para que os caras que sobraram não fujam? - perguntou Code, lançando um olhar mesclado entre curiosidade e preocupação à moça.
- Preste atenção - respondeu ela, sorrindo. Ela pisava com o pé direito nas costelas de um caçador estirado no chão, segurando frouxamente uma faca na mão e fitando Alice com raiva. Na mão esquerda ela segurava uma arma num tom claro de prata, apontando-a para mais dois desconhecidos encolhidos contra a parede. - É minha arma favorita, sabe, esse Magnum.
- 44? - indagou Maxwell, já sabendo a resposta. Alice apenas sorriu. Lena deu as costas ao balcão atrás do qual o cidadão que ela ameaçara gemia, cobrindo a orelha cortada.
- Será que mais algum dos idiotas sabe algo do Bell? - perguntou, olhando de ponta a ponta da taverna, encarando cada um dos caçadores ou testemunhas.
- Aquele cara sabe - observou Alice.
- Quem? - disparou Lena.
- Ele - Alice tirou um revólver menor da cintura e atirou em direção ao corredor escuro que levava aos fundos do estabelecimento. Alguém gritou, e ouviu-se o som de um corpo batendo contra o chão de madeira da taverna. Um rapaz de cabelos claros caíra numa parte ainda iluminada do corredor, com a mão no pescoço. A bala atingiu-o de raspão.
- Droga, errei - bufou Alice. - Tinha certeza que eu ia acertar bem no olho.
- Você estava mesmo mirando? - indagou Code, sorrindo.
- Mas é claro, meu bem - respondeu Alice, num tom levemente desafiador. Code riu, descruzando os braços e colocando as mãos nos bolsos do casaco de viagem.
- Não sei de nada! - exclamou o rapaz que caíra.
- Mentiroso... - suspirou Ella. Alice e Maxwell se entreolharam, e o rapaz levantou-se da banqueta enquanto Lena ia na direção dos dois que permaneciam no chão, apontando a lança com um olhar feroz.
- Ella tem uma percepção diferente das coisas, sabe - comentou Maxwell, andando até o rapaz que levara o tiro, os olhos brilhando e o sorriso entortando-se da forma insana que costumava entortar-se toda vez que Maxwell ficava animado sobre algo. - Se ela diz que é mentira, então é mentira.
- O que a Sociedade do Sangue deu em troca pelo seu silêncio? - quis saber Lena.
- Eu já disse que vou inocente! - exclamou o rapaz. - Por favor, não me machuquem!
- Mentira de novo. Até a súplica é mentira - observou Ella, com os olhos encobertos pelas bandagens brancas fixos no teto da taverna e uma expressão de divertimento no rosto.
- Sabe o que eu odeio mais do que pessoas que não sabem mentir direito, meu caro? - ameaçou Maxwell, o sorriso insano aumentando gradativamente. - Aqueles que não aprenderam a implorar.







